Parto domiciliar planejado

“O nascimento que foi feito para acontecer sem que ninguém esteja lá”. Existem muitas vertentes que permeiam o assunto Parto Domiciliar no Brasil. Pode, Não pode? certo ou errado? Qual profissional que pode assistir ao Parto domiciliar? Quais os riscos? E por aí vai as dúvidas e questionamentos que permeiam o assunto.

Pretendo aqui me deter ao assunto do Parto Domiciliar como uma escolha da mulher, esclarecendo as dúvidas mais frequentes.

O parto até pouco tempo o parto sempre ocorreu no ambiente domiciliar. Após a segunda guerra mundial, e com o objetivo de reduzir a mortalidade materna e infantil, o parto tornou-se um “evento médico”, um “procedimento”, que até então era atendido exclusivamente por parteiras, mulheres de uma comunidade, que compartilhavam o seu saber de mãe para a filha, de avó para neta, eram mulheres cuidando de outras mulheres.

E com certeza houve redução significativa na mortalidade materna e infantil, mas por outro lado vários esforços e desafios no milênio na redução da mortalidade materna, parece não terem sido suficientes, para alcançar níveis aceitáveis pela ciência. O aumento da cesariana, e as intervenções desnecessárias no atendimento ao parto normal, foram responsáveis por nascimentos prematuros, por desfechos maternos ruins e traumáticos para as mulheres e seus bebês, repercutindo na família e em toda a comunidade.

Quem pode ter um parto domiciliar planejado?

parto domiciliar

As mulheres a cada dia têm se informado sobre os tipos de parto, onde ele pode acontecer, e qual local é mais seguro para parirem seus filhos. Uma escolha consciente, que requer muita informação e estudo, como também conhecer como acontece os nascimentos em outras culturas, em países de primeiro mundo e qual é o resultando deste tipo de assistência oferecida em realidades diversas.

É importante salientar que não existe gestação sem risco, portanto um pré-natal de qualidade, é fundamental para que a mulher tenha um parto tranquilo e de baixo risco.

Parto domiciliar no Brasil

No Brasil não possuímos muitos estudos que falem do Parto Domiciliar, até porque para que isso ocorra é necessário ter mais partos domiciliares para que tenhamos uma amostra significativa. Os estudos realizados, na base de dados de Guideline Obstetric Gynecology mostrou um pequeno aumento nos riscos do parto domiciliar as primigestas (primeiro filho), porém o mesmo estudos mostrou que para as secundigestas (segundo filho ou mais) ter o parto em domiciliar é mais seguro. (Hutton EK. 2015).

A Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal de Janeiro/2016, CONITEC, diz não desencorajar a mulher a ter o parto domiciliar desde que este: “Assegurar que todas as mulheres que optarem pelo planejamento do parto fora do hospital tenham acesso em tempo hábil e oportuno a uma maternidade, se houver necessidade de transferência”. Isso significa que o que as mulheres precisam é de um sistema de saúde contemple sua decisão pelo parto domiciliar planejado e forneça estrutura adequado em caso de transferência ou situação de emergência.

A  Federação Internacional de Ginecologia e Obstetrícia (FIGO) recomenda que “uma mulher deve dar à luz no local onde se sinta segura, e no nível mais periférico onde a assistência adequada for viável e segura”.

O parto domiciliar possui muitas vantagens em termos de desfechos maternos, apontadas na literatura, como:

  • Menores taxas de intervenções como episiotomia (corte na vagina),
  • Menor uso de analgesia de parto,
  • Menor uso de ocitocina,
  • Menor uso de parto instrumental (fórceps e vácuo-extrator),
  • Sem aumento de risco de complicações para as mães e seus bebês, e;
  • Grande satisfação das mulheres que passaram por esta experiência.

Quem participa do parto domiciliar?

parto-domiciliar

É crescente o número de equipes que realizam o parto domiciliar no Brasil. Essas equipes podem estar compostas por diversos profissionais, como enfermeiros obstetras, obstetrizes, médicos e outros profissionais que podem compor a equipe. A presença da doulas nos partos domiciliares e hospitalares também vem ganhando espaço e tem contribuído significativamente para a livre escolha da mulher e nas decisões sobre o seu parto.

 As equipes que assistem ao Parto Domiciliar no Brasil devem ter treinamento de emergência tanto para a assistência a Parturiente como para o recém-nascido, e ter um plano “B” em caso de necessidade de transferência seja por emergência ou por escolha da mulher, como por exemplo, o desejo de analgesia no parto.

A mulher que deseja ter um parto domiciliar planejado, deve primeiramente ter realizado pré-natal, de baixo risco; não ter comorbidade (doenças: diabetes, hipertensão, cardiopatias, entre outros) na sua gestação ou mal passado obstétricos que necessita ter um parto assistido do ambiente hospitalar.

É importante também que conheça a equipe que vais assistir o seu parto, realizar o pré-natal com esta equipe, estabelecendo vínculo e tirando suas dúvidas no transcorrer da gestação. Ter uma doula de sua livre escolha; ter um parceiro e família que apoie a sua decisão. Ela também deve se informar, fazer o curso de gestante, e ter um plano de parto que contemple os desejos da mulher e da família, pautado sempre no respeito, na humanização e autonomia da mulher.

Como funciona a dinâmica?

parto domiciliar bola suiça

Durante o trabalho de parto é liberado um coquetel de hormônios, e para que isto aconteça fisiologicamente é necessário que a mulher se sinta segura, não se sinta vigiada, e receba o mínimo de intervenções e estímulos possíveis.

O ambiente domiciliar pode proporcionar estas condições, visto que a mulher já o conhece e se sente protegida. Ela poderá se alimentar do que desejar e quando desejar; caminhar, deitar, tomar líquidos, banho quente no chuveiro, podendo escolher a posição do parto, bem como esperar o tempo do bebê para o nascimento.

A equipe oferece medidas não farmacológicas para alivio da dor, como massagem, banho de chuveiro, ou banheira, deambular, acupuntura (quando profissional habilitado na equipe), uso de florais, aromaterapia entre outras.

Para o cuidado do bem estar materno e fetal é realizado acompanhamento dos sinais vitais da parturiente como Pressão Arterial, Pulso, respiração, temperatura; ausculta intermitente do batimento cardíaco fetal – BCF; avaliação da evolução do trabalho de parto, através do uso do partograma, bem como registro em prontuário.

Que a mulher seja acolhida e respeitada diante da escolha pelo Parto Domiciliar Planejado. Espero que esta leitura tenha fornecido informações e esclarecimentos acerca deste tema tão debatido no Brasil.

parto domiciliar planejado - casal feliz
A Parteira – Imagina-te como uma parteira. Acompanhas o nascimento de alguém, sem exibição ou espalhafato. Tua tarefa é facilitar o que está acontecendo. Se deves assumir o comando, faze-o de tal modo que auxilies a mãe e deixes que ela continue livre e responsável. Quando nascer a criança, a mãe dirá com razão: nós três realizamos esse trabalho. (Lao Tse)

REFERÊNCIAS

Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no SUS – CONITEC. Diretriz Nacional de Assistência ao Parto Normal. Janeiro/2016.

Hutton EK. Et al. Outcomes associated with planned place of birth among women with low-risk pregnancies. 2015. CMAJ. 2016 Mar 15; 188(5): E80–E90. Canada Inc. or its licensors.

FIGO. Recommendations accepted by the general assembly at the xiii world congress of gynecology and obstetrics [internet]. international journal of gynecology and obstetrics 1992;38(supplement):s79-s80.[cited 2011 sep 19] available from: http://www.ijgo.org/article/0020-7292(92)90037-j/pdf

 

Enfermeira Obstetra
Mestre em Saúde e Meio Ambiente
Membro da Equipe Bem querer – Parto Domiciliar Planejado.
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