Características de violência obstétrica

Para alguns pode parecer estranho falar que pode haver violência obstétrica, algumas mulheres só descobrem que passaram por isso após ter dado à luz aos seus filhos e relatarem seu parto para outras mulheres. Infelizmente, ainda é uma realidade nos hospitais. A melhor arma para acabar com isso é se apossar das informações e não admitir que isso aconteça com você. Para isso é necessário conhecer as características de violência obstétrica.

O parto é um momento único e extremamente marcante na vida de uma mulher. Ao parir o filho, está parindo aquela que será a cuidadora e alimentadora daquele novo ser, portanto, ela merece ser tratada com carinho e respeito, porque tudo que ela ouvir nessa hora ficará guardado para sempre em seu coração.

Foi assim comigo, sempre achei que os meus partos foram lindos e realmente foram. Participei ativamente deles, senti cada contração, cada dor e cada puxo e quando eles nasceram, estar com eles no braço foi o momento mais maravilhoso do mundo, inesquecível.

Mas as coisas que ouvi, os procedimentos que passei, sendo que nem todos eram realmente necessários, isso ficarão marcados para sempre na memória e em cada vez que repetir o relato de um dos partos. Por isso, quero compartilhar quais são algumas das maneiras que pode-se sofrer violência obstétrica, para que outras mulheres não passem pelo que passei. Conheçam também as boas práticas do parto normal.

O que é violência obstétrica?895-o-alcance-da-violencia

A violência institucional na atenção obstétrica, também chamada de violência obstétrica, é a violência cometida contra a mulher grávida e sua família em instituições de saúde, no momento do atendimento pré-natal, ao parto ou aborto. Pode ser verbal, física, psicológica ou mesmo sexual e se expressa de diversas maneiras, às vezes explícitas, às vezes veladas.

Como outras formas de violência contra a mulher, a violência obstétrica é fortemente condicionada por preconceitos de gênero (sexismo). Alguns exemplos desse tipo de violência: ofender, humilhar ou xingar a mulher, fazer piadas ou comentários desrespeitosos a respeito de seu corpo, tratar a mulher ou seu/sua acompanhante de modo grosseiro, imobilizar a mulher, negar atendimento, realizar intervenções sem antes explicar à mulher a necessidade do procedimento, prestar assistência sem observação das melhores evidências científicas disponíveis, afastar o recém-nascido da mulher após o parto, entre outros.

Muitas vezes, o modo de organização das instituições de saúde constitui uma forma de violência, ao impor protocolos de atendimento padronizados a todas as mulheres, por vezes sem qualquer conhecimento científico que os sustente.

Características de violência obstétrica?

Antes do parto

– Pré natal com informações insuficientes ou questionáveis sobre o andamento da gestação.- Falsas indicações para cirurgia cesariana

– Falta de informações sobre a fisiologia do parto normal e riscos de cirurgias cesarianas

– Ausência ou má qualidade de informações sobre como a mulher deve proceder durante o início do trabalho de parto

– Impossibilidade de a mulher escolher previamente o local de parto

Durante o parto

episiotomia - violência obstétrica

Violência física:

Ações que incidam sobre o corpo da mulher, que interfiram, causem dor ou dano físico (de grau leve a intenso), sem recomendação baseada em evidências científicas. Exemplos:

  • tapas
  • empurrões
  • aplicação de soro com ocitocina sintética a fim de contrair artificialmente o útero
  • privação de movimentos
  • falta de liberdade para ingerir líquidos e alimentos
  • privação de métodos naturais para alívio da dor
  • privação de anestesia quando necessária e reivindicada pela mulher
  • forçar membros
  • toques indesejados e/ou toques realizados por diferentes pessoas
  • descolamento de membrana sem consentimento da mulher
  • Ruptura artificial da bolsa sem consentimento da mulher
  • Obrigar a mulher a ficar deitada ou em outra posição que ela julgue dolorosa durante o trabalho de parto e/ou nascimento do bebê
  • Manobra de Kristeller (quando o profissional de saúde sobe em cima da barriga da gestante e a força para baixo)- amarrar as pernas na perneira- episiotomia (corte ou “pique” na vagina)
  • “ponto do marido”, ou sutura da episiotomia maior que a necessária para fechar o corte a fim de estreitar a vagina e oferecer maior prazer sexual ao parceiro
  • Uso de fórceps sem indicação clínica, fórceps didático;
  • Cesarianas sem real indicação clínica e por conveniência do médico;
  • Submeter a mulher a qualquer procedimento desnecessário sem seu conhecimento, sem esclarecimento de riscos e complicações, ou sem seu consentimento;

Violência psicológica

violência obstétrica psicologica

Toda ação verbal ou comportamental que cause na mulher sentimentos de inferioridade, vulnerabilidade, abandono, instabilidade emocional, medo, acuação, insegurança, dissuação, ludibriamento, alienação, perda de integridade, dignidade e prestígio. Exemplos:

  • Todo tipo de humilhação, tortura psicológica, ameaças, chacotas, ofensas,
  • Piadas sobre obesidade, pêlos pubianos, estrias, evacuação;
  • Recriminar o choro, o grito ou as conversas da mãe com seu bebê;
  • Recriminar a expressão de sua religiosidade;
  • Discriminação étnico racial;
  • Discriminação econômico-social;
  • Discriminação referente à idade, profissão, orientação sexual da mãe;
  • Utilizar de tratamento infantilizador, ou outro que inferiorize a mulher;
  • “Na hora de fazer, você gostou, né?”
  • “Não grita, se não ninguém vai te atender.”
  • “Obedece, se não você vai matar o seu bebê, você quer matar o seu bebê?”
  • “Reclama agora, mas ano que vem está aqui de novo!”
  • “Pára de chorar, se não vou te furar todinha.”
  • “Você vai parir deitada porque você não é índia.”
  • “Faz força, você é muito mole! Preguiçosa!”
  • Impedir a entrada ou permanência do acompanhante de livre escolha da mulher;
  • Restringir a escolha do acompanhante;
  • Exagerar no prognóstico;
  • Ludibriar a mulher para agendamento da cesárea;
  • Coagir a mulher quando essa não aceita o agendamento da cesárea;
  • Coagir a mulher quando essa quer buscar uma segunda opinião;
  • Se recusar a informar a mulher sobre seu estado de saúde, ou se recusar a informar de maneira clara, acessível e respeitosa;
  • Se recusar a informar a mulher sobre o estado de saúde de seu bebê;
  • Separar o bebê saudável de sua mãe sem necessidade clínica;
  • Outras

Violência institucional 

Ações ou formas de organização que dificultem, retardem ou impeçam o acesso da mulher aos seus direitos constituídos, sejam estes ações ou serviços, de natureza pública ou privada. Exemplos:

  • Falta de vagas em hospitais e incentivar “peregrinação” por internação
  • Omissão no encaminhamento adequado da mulher diante da falta de vagas;
  • Impedimento da entrada de um acompanhante escolhido pela mulher na instituição de saúde
  • Falta de adequação para a entrada e permanência de um acompanhante de livre escolha “Ô, mãezinha, aqui não tem estrutura, se você quer luxo vai lá e paga particular.”, “A enfermaria tem muitas pacientes e não tem privacidade, não pode entrar acompanhante homem.”;
  •  Falta de capacitação das redes de atendimento a mulheres vítimas de violência para acolher denúncias de violência obstétrica e tratar de suas especificidades;
  • Tolerância do Estado às violências contra as mulheres na assistência ao parto, morosidade na fiscalização dos serviços de atenção ao parto e nascimento;
  • Descumprimento da legislação vigente;- Oferecer internação em ala particular (em hospitais conveniados ao SUS) quando a mulher exige direitos garantidos por lei no serviço público;

Violência sexual

Ações que se referem ao controle da sexualidade da mulher através do abuso da posição de poder e confiança; como assédio sexual, flerte; “cantadas”, contatos físicos forçados, convites impertinentes, insinuações, incitações sexuais; mutilação da vagina. Exemplos:

  • Exames de toque desnecessários, realizados por uma pessoa (ou várias) sem a devida apresentação, e sem esclarecimento sobre a necessidade do exame;
  • “ponto do marido”, ponto profundo com finalidade de deixar a vagina mais apertada e preservar o prazer masculino; “Vou deixar a senhora bem apertadinha, para o seu marido não vir aqui reclamar comigo.”;
  • Comentários referentes à relação sexual durante o exame de toque; “Assim dói? O do seu marido não é maior?”
  • Comentários sexistas ou elogios atrevidos sobre a aparência física da mulher;
  • Insinuações sexuais inconvenientes e ofensivas;
  • Ameaças diante de manifestação de recusa, como de chantagem, intimidação, coerção;
  • Comentários humilhantes ou chacotas referentes à prática sexual que provocaram a gravidez, “Ano que vem você tá aqui de novo, vocês são tudo assim.”;
  • Laqueaduras (esterilização feminina) sem aviso prévio, sem esclarecimento e sem consentimento;

Fonte: Parto do princípio

Mediante a tudo isso, eu hoje percebo como é extremamente importante conhecer todas as implicações que pode ocorrer na hora do nascimento. Como é importante que o parceiro tenha os mesmos conhecimentos, para lutar pelos direitos da parturiente, reconheço também como a função da doula é divina e como ela traz segurança para garantir que os direitos da mulher e do bebê prevaleçam.

Reconheço também que ainda temos muito chão pela frente na questão da conscientização e de espalhar o conhecimento para mais mulheres. Além disso tudo, reconheço a importância de um plano de parto, que em breve iremos falar um pouco melhor sobre isso!

Mãe do Cauê e da Catarina, esposa do Diogo Petermann. Casada há 11 anos. Apaixonada por brigadeiro de panela, pipoca e Grey's Anatomy!

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